quarta-feira, 3 de março de 2010

O Desafio Da Leitura Nas Séries Iniciais


Por: Abraão Augusto da Silva Santos


1 INTRODUÇÃO



Vivemos em uma sociedade altamente letrada, onde o domínio da leitura é uma atividade de vital importância para o sucesso na vida de qualquer pessoa. É por meio dela que conseguimos compreender e interagir com o mundo a nossa volta. O bom domínio da leitura nos permite realizar com desenvoltura as atividades que colaboraram para o nosso crescimento pessoal e intelectual e ainda capacita-nos a agir de forma ativa e critica na sociedade em que vivemos.


No âmbito escolar, podemos perceber que ainda há muitas dúvidas e discussões a cerca do ensino de leitura nas aulas de Língua Portuguesa, pois muitos professores se formaram há muito tempo e não se reciclam afim de acompanhar as novas teorias e concepções sobre língua e ensino. Tem-se observado em muitos estabelecimentos de ensino que os alunos apresentam dificuldades em ler, reconhecer e interpretar textos em língua portuguesa pela forma como a leitura é processada na escola, desconsiderando-se, muitas vezes, os gêneros textuais que os alunos de fato têm contato no seu cotidiano. Muitos professores, por falta de conhecimento das teorias dos gêneros ou por ignorarem sua relevância, ainda trabalham a leitura de forma descontextualizada, utilizando-se de textos como “desculpa” aos exercícios de gramática. As aulas de leitura por muito tempo foram substituídas pelo estudo de um único elemento da língua: a gramática, especialmente a normativa, que na verdade não desenvolvia as habilidades linguísticas dos alunos, seu estudo se concentrava em exercícios de memorização de funções sintáticas e nomenclaturas que na vida real nunca eram utilizada pelos alunos. A este respeito Antunes (2007, p. 42) afirma que,



Ingenuamente, a gramática foi posta num pedestal e se atribuiu a ela um papel quase de onipotência frente àquilo que precisamos saber para enfrentar os desafios de uma interação eficaz. E daí vieram as distorções: a fixação no estudo da gramática, como se ela bastasse, como se nada mais fosse necessário para ser eficaz nas atividades de linguagem verbal.



Muitos profissionais até gostariam de trabalhar de forma diferente, mas há ainda escolas onde a direção e até mesmo os pais dos alunos exigem o ensino voltado quase que exclusivamente voltado para a gramática, ajudando a perpetuar o problema do déficit de leitura existente no país. Numa sociedade complexa e dinâmica como a nossa saber ler e compreender bem os diversos textos em circulação é mais importante que decorar a gramática da língua. Considerando a relevância social da leitura, Solé (1998, p. 18) afirma que:



Poder ler, isto é, compreender e interpretar textos escritos de diversos tipos com diferentes intenções e objetivos contribui de forma decisiva para a autonomia das pessoas, na medida em que a leitura é um instrumento necessário para que nos manejemos com certas garantias em uma sociedade letrada.



Acredita-se que a escola é o lugar onde se aprender a ler e a gostar de ler. Acreditamos que nas séries iniciais do Ensino Fundamental deve-se dar uma atenção especial ao ensino de leitura. Despertar o prazer pela leitura, bem como desenvolver estratégias que facilitem a leitura pode garantir que a criança torne-se um adulto letrato e preparado para agir de forma crítica e significativa na sociedade.


A leitura nas séries iniciais muitas vezes é feita de forma precária, é dada muito mais importância ao ensino lexical em detrimento do ensino do sentido das palavras nos textos. Por muito tempo a escola tem cometido o equivoco de pensar que seu único papel ensinar a ler, escrever e fazer contas. O papel do professor transcende estas questões.


O papel de mediador desempenhado por nós professores não é tarefa fácil, aliás, esse trabalho não deve ser tarefa exclusiva do professor de Língua Portuguesa, em todas as disciplinas ele deve ser desenvolvido. A função de cada um de nós, professores e professoras, independente da área curricular, é promover a leitura de textos que devam ser aprofundados para que todos vivenciem o encantamento da descoberta de sentidos trazido pela leitura, dialogando com a realidade e formando para a cidadania.


(SOUZA, online)



Perfil do Autor


Graduado em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz

(Artigonal SC #1916438)


Fonte do Artigo - http://www.artigonal.com/linguas-artigos/o-desafio-da-leitura-nas-series-iniciais-1916438.html

Entrevista
"Educação física é essencial para despertar uma vida mais saudável"

Autor:Arquivo pessoal

Com 16 anos de experiência como professor de educação física em escolas públicas e privadas, o presidente da Conselho Federal de Educação Física (Confef), Jorge Steinhilber, anuncia que 2009 é o Ano da Educação Física Escolar. Em entrevista ao Jornal do Professor, ele falou sobre a campanha Educação Física Escolar – Plantando cultura, cidadania e saúde. O ex-atleta, que jogou vôlei, basquete, tênis e, ainda, fez remo, aponta para o enfraquecimento da disciplina nas escolas. Aos 63 anos de idade, mestre em educação física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele ressalta a importância da disciplina como fator essencial de uma educação para uma vida saudável.



Jornal do Professor - Por que 2009 foi escolhido como o Ano da Educação Física Escolar?

Jorge Steinhilber - A campanha que decidimos deflagrar é para chamar atenção mesmo. Há algum tempo nós temos percebido que a educação física escolar, tanto no Brasil quanto nos demais países, vem sofrendo uma depreciação por parte das políticas públicas. De modo geral, não estão dando a devida importância ao ensino da educação física escolar. Algumas secretarias vêm diminuindo sistematicamente a carga horária da disciplina, reduzindo-a a apenas uma hora por semana. Para se ter uma idéia do quanto isso representa, houve uma época em que eram obrigatórias três aulas por semana.

Com aulas apenas uma vez por semana, os alunos não conseguem desenvolver um condicionamento físico adequado e muito menos aprender um esporte. Então, precisamos efetivamente fazer uma reflexão, um trabalho, no sentido de poder identificar a razão de ser dessa educação física escolar.

JP - Qual a importância da educação física escolar?

JS - A principal função da escola é a formação da criança para ser um futuro adulto. No entanto, na escola, cada área tem uma especificidade: matemática trabalha com números, o português com letras e assim por diante. Já a educação física é a única disciplina que trabalha com o corpo, com movimento. Temos que formar a criança para ser um futuro cidadão, compreendendo seu corpo, entendendo suas necessidades e o porquê de se movimentar. Por isso, a disciplina de educação física não pode ser somente uma atividade prática. Tivemos um período, 1960, em que a educação física era obrigatória três vezes por semana. Por que não foi legitimada? Porque não atendeu aos interesses das crianças. Na verdade, a educação física escolar não cumpriu o papel que deveria que é o de mostrar para a criança a compreensão da necessidade desse movimento.

JP - Há várias metodologias para ensinar educação física. Como tratar esta disciplina de forma transversal?

JS - Se a escola não tiver um conselho de classe integrado, nada acontece. É preciso que o professor esteja engajado no projeto político pedagógico da escola. É importante que cada professor saiba o que os demais estão fazendo. Não é difícil elaborar atividades que contemplem outras disciplinas. Mas é importante frisar que uma atividade não substitui a outra. Nenhuma outra disciplina consegue substituir a educação física, por causa do movimento. Se você deixar de ter a educação física, você causa um prejuízo sério para a criança porque ela deixa de vivenciar as circunstâncias necessárias. Precisamos conscientizar as pessoas para isso.

JP – De que maneira a educação física escolar pode contribuir para diminuir os índices de doenças cardiovasculares?

JS - Hoje as epidemias estão postas: obesidade, estresse, sedentarismo. A maioria delas é decorrente da falta de exercício físico. É aquela velha história, se você deixar a máquina parada, ela enferruja. O mesmo acontece com o nosso corpo: se você não irriga seu organismo, não tem compreensão disso, você automaticamente vai criar danos ao seu próprio organismo. A função da educação física escola é dar às crianças a oportunidade de vivenciar e identificar as atividades de que gosta. Se os estudantes tiverem a compreensão disso, eles vão buscar alternativas para suprir e, futuramente, praticar outras atividades.

JP - Em escolas onde não há infraestrutura de esporte, quais as atividades que podem ser praticadas?

JS - Respondo citando um caso bem extremo porque, de forma geral, a gente sempre pode procurar alternativas: uma praça na frente da escola, um clube desativado próximo à escola, entre outras tantas parcerias. Agora, partindo do pressuposto de que não há nada próximo: nem rua, nem praça, nada. A aula pode ser feita dentro da sala, basta puxar as cadeiras para o lado. Não é o ideal, muito menos o mais apropriado, mas não é inadequado. Desta forma, é possível que você trabalhe em sala de aula algumas vivências com as crianças, como jogos de salão, ginástica de solo e dança, além de passar filmes e fazer discussões. Tem uma infinidade de atividades que podem ser feitas sem ginásios e campos de futebol. O que proponho é levar o aluno a entender o que ele é e o que representa o movimento na vida dele. O principal é trabalhar com as crianças a importância das atividades.

(Renata Chamarelli)

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Entrevista
Dislexia é quadro raro, com causas diversas

Autor:Fernanda Gomes

Doutora em neurociências e livre-docente em neurologia infantil, a psicóloga Sylvia Maria Ciasca é professora associada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde coordena o Laboratório de Distúrbios e Dificuldades da Aprendizagem e Transtornos da Atenção (Disapre), do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas.

Tem experiência na área de medicina, com ênfase em neuropsicologia, atuando principalmente nos seguintes temas: funções corticais superiores, distúrbios da aprendizagem, transtornos da atenção.

Em entrevista ao Jornal do Professor, Sylvia Maria Ciasca fala da dislexia, abordando suas causas, características, e formas de tratamento, entre outros temas.

Jornal do Professor - O que é a dislexia?

Sylvia Maria Ciasca - A dislexia, segundo DSM-IV(1995), caracteriza-se como um transtorno específico no aprendizado da leitura, com rendimento escolar que se situa inferior ao esperado em relação à idade cronológica, ao potencial intelectual e à escolaridade do indivíduo. Portanto a dislexia é uma alteração específica no processo de aquisição e desenvolvimento da leitura, que conduz a falha no processamento da informação recebida quer de forma visual ou auditiva. Esta alteração não é considerada como lesional, mas sim como uma disfunção característica do neurodesenvolvimento. Atualmente uma das definições mais significativas de dislexia foi proposta por Shastry (2007), que se refere ao problema ou dificuldade de leitura como inabilidade específica da leitura: é um transtorno em que as crianças com inteligência e habilidades sensoriais normais mostram déficits de aprendizagem para a leitura. Evidências comprovam sua origem biológica e a preponderância de distúrbios fonológicos. É sem duvida o transtorno da aprendizagem mais estudado na infância”.

Ao se definir dislexia, deve-se primeiro diferenciar:

Transtornos secundários de leitura, onde se evidencia uma causa direta;

Atraso simples em leitura, quando a criança lê de forma deficitária, porém compatível com sua capacidade intelectual e cognitiva;

Dificuldade de aprender a ler, com manifestação de vários déficits como cognitivo, perceptual, sócio-cultural, que conduzem a falha no processo de aprendizagem.

A dislexia apesar de muito falada, é um distúrbio especifico da aprendizagem, considerada de origem neurobiológica e genética, portanto um quadro raro, cuja incidência varia de 5 a 8% das crianças que apresentam dificuldade para aprender e que depende da população avaliada e dos fatores envolvidos nesta avaliação.

JP - Por que ocorre?

SMC – As causas da dislexia são diversas e envolvem múltiplos fatores como: a) diferenças na atividade cerebral, ou seja, o cérebro dos disléxicos mostra áreas que são menos ativadas ou ativadas de forma diferente em determinadas tarefas envolvendo o hemisfério dominante; b) processamento auditivo e visual, o cérebro processa rápida e sucessivamente sons e imagens com funcionalidade diferente nos disléxicos; c) erros de migração neuronal, causados por fatores nutricionais, isquêmicos, medicamentosos, virais, etc ; d) fatores genéticos, ligados a alterações cromossômicas específicas; e) falha no processamento temporal.

As causas da dislexia também estão associadas a alguns fatores de risco como: histórico familial, atraso no desenvolvimento e aquisição da fala, prematuridade e baixo peso ao nascer (inferior a 1500 g).

Os limites entre a dislexia e a normalidade são muito imprecisos. Costuma-se dizer que ambos são pontos de um mesmo contínuo, que iniciaria com a aquisição da leitura normal e terminaria na dislexia em seus diversos graus e subtipos.

Junto ao quadro da dislexia, cabe ressaltar a existência de comorbidades, ou seja sempre temos associado ao problema da leitura, outro problema como o da escrita, do cálculo matemático ou mesmo da atenção e do ambiente interferindo em conjunto, portanto podemos considerar as formas puras como sendo quase uma exceção à regra, tornando o processo diagnóstico difícil e mais inter e multidisciplinar.

JP - Quais as características apresentadas pelas pessoas que têm dislexia?

SMC - A dislexia é caracterizada por uma leitura lentificada, imaturidade fonológica, dificuldade para realizar rimas, confusões têmporo-espaciais, dificuldade em relação a esquema corporal e lateralidade, dificuldade em realizar provas de consciência fonológica, dificuldade para aprender a correspondência letra-som, entre outras que se apresentam de diferentes formas como: confusão de letras com pequenas diferenças na grafia (e – c, i – j, u – v) e confusão entre letras com diferente orientação espacial (b – d, b – p, d – p), inversões, substituições de letras e símbolos numéricos, adição, subtração, repetição de sílabas, palavras e frases, leitura e escrita em espelho, e dificuldade na decodificação.

Porém, cabe ressaltar que estas características devem ser avaliadas, levando-se em consideração o estágio do desenvolvimento da criança, o seu nível de aquisições e, principalmente, as oportunidades que esta criança tem de aprender adequadamente.

Aprender é um processo individual e único, cada pessoa aprende de uma forma, uns com maior rapidez, outros com menor esforço, mas sempre a aprendizagem se faz, principalmente, se coexistirem fatores como: estimulação adequada+motivação+ambiente interno e externo que a propicie.

JP - Como conviver com isso?

SMC – Conviver com a dislexia é sem dúvida difícil, principalmente em uma sociedade que cobra a todo o momento, e onde o fato de não ler ou ler de forma inadequada prejudica muito a criança, a família e a escola.

É preciso inserir, adaptar, programar e intervir de modo adequado para que a criança ou o adulto disléxico possa buscar novos caminhos de aprendizagem.

Mas também é preciso repensar, não só em termos dos distúrbios de aprendizagem, que como a dislexia, tem uma característica neurobiológica e funcional. E como conviver com um número cada vez maior de crianças com dificuldades escolares, cujo fator causal não é orgânico, mas sim pedagógico ligado a inadequações escolares das mais diferentes ordens?

Coloco este repensar como fator fundamental para todos nós da área da saúde e da educação. Como ponto significativo para união de forças, que pensem na criança com dificuldade ou distúrbio de aprender como estímulo da solução de problemas.

JP – Há algum tratamento? Existe algum medicamento ou exercício que pode ser feito para melhorar as condições do cérebro, nesse caso?

SMC – Não existe uma fórmula milagrosa que cure a dislexia, ou um medicamento que solucione todos os problemas porque, cabe dizer, uma vez disléxico sempre disléxico. Mas existem “tratamentos” ou o que chamamos de programas interventivos que apresentam grandes resultados e implicam em trabalho árduo tanto para a criança, como para escola e família.

Através de diferentes técnicas e abordagens, é possível “ensinar” o cérebro a desenvolver outras rotas ou caminhos de processamento da leitura, diferente do usual e comum para maioria das pessoas.

A partir do momento que se ensina e treina a pessoa, existe uma significativa melhora na velocidade de processamento da informação, compreensão da linguagem escrita e falada. Para tanto, é necessário primeiro se identificar a principal dificuldade, determinadas quais habilidades envolvidas estão realmente comprometidas, selecionar e observar a resposta desejada, medir desempenho obtido e compará-lo sempre que possível. Mas principalmente é necessário saber que a criança chega à escola ou ao tratamento, com uma história anterior de aprendizagem, que precisa ser aproveitada para que ela possa projetar este conteúdo no presente, e só assim será possível prever o futuro em relação ao seu desempenho acadêmico e a própria vida.

JP – Que diferença existe entre a dislexia e o déficit de atenção, por exemplo?

SMC – Existem diferenças significativas entre um e outro, infelizmente as pessoas referem-se como se os dois fossem sinônimos.

O Transtorno da Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um distúrbio biológico, caracterizado por hiperatividade, impulsividade e distrabilidade. Suas principais causas são: falha nos neurotransmissores usados pelo cérebro para o controle do comportamento; diminuição no metabolismo glicose no sistema nervoso central; fatores genéticos e ambientais; e fatores cognitivos, aprendizagem, motor.

A incidência de TDAH – 3 a 5% da população na idade escolar, maior incidência de meninos, de 5 a 25% das crianças com TDAH tem distúrbio da aprendizagem, e os sintomas de ambos vão persistir na adolescência e na vida adulta

De forma geral, devemos diferenciar os distúrbios da aprendizagem e os transtornos de atenção com disfunções, cujos sintomas podem coexistir e, portanto são considerados comorbidos. Ambos requerem especial atenção dos professores e pais, na tentativa de procurar auxílio e soluções que efetivamente minimizem o problema.

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Notícias - 2010
Paga a segunda parcela do Fundeb
Seg, 1 de março de 2010
ASCOM-FNDE (Brasília) – O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) transferiu, no dia 25 de fevereiro, R$ 441.071.368,09 referentes à segunda parcela da complementação da União ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb). O recurso pode ser conferido no portal www.fnde.gov.br ou nas páginas da Secretaria do Tesouro Nacional e do Banco do Brasil na Internet.

Os estados de Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco e Piauí vão receber este ano a complementação por não terem alcançado, com recursos próprios, o valor mínimo nacional por aluno/ano, que, em 2010, é de R$ 1.415,97.

O Fundeb é o resultado da soma de recursos federais mais a arrecadação de impostos e transferências dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, vinculados à educação, conforme estabelece o artigo 212 da Constituição Federal. Independentemente da origem, todo o recurso gerado é redistribuído para aplicação exclusiva na educação básica, de acordo com o número de alunos matriculados. Os estados e respectivos municípios que não conseguem arrecadar suficientemente recebem uma complementação da União.

Confira abaixo os valores transferidos aos nove estados:

UF
Valor da complementação da União em R$
AL
18.678.666,51
AM
13.386.523,30
BA
113.510.884,78
CE
56.329.278,42
MA
90.191.529,95
PA
90.929.566,31
PB
8.489.269,71
PE
27.611.313,24
PI
21.944.335,88
TOTAL
441.071.368,09

terça-feira, 2 de março de 2010

Planejamento Escolar
Entrevista
José Cerchi Fusari: “Planejar evita o excesso de improviso pedagógico”.

Professores participam de reunião de planejamento.

Autor:Arquivo do MEC


Com mais de 40 anos de experiência em educação, José Cerchi Fusari* defende a retomada do planejamento educacional como uma atividade realizada durante todo o ano letivo e não somente no início. Professor doutor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Fusari trabalhou sistematicamente na formação de pedagogos, professores e pesquisadores. É doutor em educação pela USP, mestre em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), formado em pedagogia pela PUC–SP e egresso das antigas escolas normais de formação de professores. Além da longa experiência em ensino fundamental, médio e superior, no momento coordena na FEUSP o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Formação de Educadores (GPEFE).



JP - O que se entende por planejamento de ensino? Qual o seu conceito?



JCF - A maioria das escolas brasileiras organiza no começo do ano uma semana de planejamento. Isso tem um lado positivo e negativo. Como não há uma cultura de planejamento, isso acaba limitando-o àquilo que acontece somento no início do ano letivo. Planejar não pode ser caracterizado como uma atividade datada e situada, deve ser um processo mais amplo, caso contrário, cairemos no “repentismo pedagógico” em que as escolas vivem de improvisos.

Sendo assim, o planejamento pode ser definido como um processo permanente, crítico e reflexivo vivenciado pelos educadores, em especial, nos 200 dias letivos e para além deles. É muito mais amplo do que a elaboração de planos e projetos. O planejamento é uma atitude, um valor que damos ao pensar, ao refletir. Ao fazer isso, valorizamos os educadores enquanto protagonistas do processo de educação escolar.

Atualmente, o planejamento escolar está estigmatizado como uma tarefa supérflua, desnecessária e burocrática. Entretanto, é importante recuperar a identidade do planejamento na escola como uma vivência, uma atitude. O planejamento transformado em cultura vai propiciar bons projetos, planos de aula e planos de ensino.



JP - É importante a participação da comunidade e dos conselhos escolares na hora de formular o plano de ensino? Como eles podem contribuir?



JCF - Toda escola se organiza a partir de um currículo formal, o qual serve de base para a construção de um Projeto Político Pedagógico (PPP). A construção deste projeto deve ser feita coletivamente, de maneira participava, costurada com a comunidade na qual a escola está inserida. Por isso, podemos dizer que o projeto é uma obra aberta. O PPP está sempre sendo reinventado porque a relação da escola com a comunidade é dinâmica.

A comunidade pode contribuir de várias formas. Sabemos que existem escolas muito fechadas em relação a comunidade, mas tem escolas que conseguem ter um diálogo mais aberto. Para isso, há formas instituídas como os conselhos escolares, que funcionando democraticamente, estabelecem um canal de comunicação rico e saudável para a escola. A escola tem que ir além do que é a expectativa da comunidade. O PPP tem uma função tripolar: está voltado para a educação dos alunos, mas também para a educação dos professores e da comunidade. Assim a comunidade se torna co-responsável pela escola e seu projeto pedagógico.



JP - O que deve ser levado em consideração na hora de montar um plano escolar, curricular e de aula?



JCF - O fundamental não é decidir se o plano será redigido no formulário x ou y, mas assumir que a ação pedagógica necessita de um mínimo de preparo, mesmo tendo o livro didático como um dos instrumentos comunicacionais no trabalho escolar em sala de aula. É importante desencadear um processo de repensar todo o ensino, buscando um significado transformador para os elementos curriculares básicos:

Princípios educacionais – Estão presentes na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Entretanto, é interessante que a escola se reúna e reescreva os princípios levando em consideração as situações locais. Os princípios são o ponto de partida do processo de elaboração de um plano escolar e é interessante que acompanhe todo o processo de planejamento escolar.

Objetivos – Estes são os pontos de chegada, onde se pretende chegar com as atividades da escola, de cada disciplina e das aulas.

Conteúdo – É necessário também prever o conteúdo como um recorte do conhecimento que fará parte de cada disciplina. Conhecimento este produzido históricamente pela humanidade.

Métodos de ensino – Concomitante a definição dos objetivos que constituem o ponto de partida para qualquer método de ensino, cumpre ao professor e supervisor o planejamento de técnicas, instrumentos, procedimentos, situações e experiências de ensino que visam engajar o aluno em situações capazes de produzir aprendizagens crítico-reflexivas.

Avaliação – A avaliação é o processo pelo qual a escola e os professores procuram determinar a qualidade e quantidade de mudanças efetuadas na aprendizagem dos educandos, sempre tendo como referência os princípios, objetivos, conhecimentos, metas e sistemas de avaliação. As situações de avaliação são mais facilmente escolhidas e planejadas quando os objetivos são bem definidos.



JP - Qual plano deve ser prioritário: escolar, curricular ou de aula?



JCF - Os três tipos de plano se complementam, se interpenetram e compõem o corpo do plano de currículo da escola. Entretanto, na prática das unidades escolares, devido à quase total falta de condições de trabalho docente, a elaboração dos planos escolar, de curso e de ensino tem-se revelado complexa, fragmentada, longe mesmo, em alguns casos, daquela organicidade desejada para o processo de ensino e aprendizagem.



Na atual conjuntura problemática em que se encontram a escola, vamos estimular os professores a prepararem as suas aulas, garantindo, deste modo, um trabalho mais interessante e produtivo no processo ensino e aprendizagem, no qual o professor seja um bom mediador entre os alunos (com suas características e necessidades) e os conteúdos do ensino.



*jcfusari@usp.br



(Renata Chamarelli)

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Entrevista
Fabrício Carpinejar: Ler é conversar consigo para melhor conversar com os outros.

Fabrício Carpinejar é autor de 13 livros, sendo oito de poesia.

Autor:Renata Stoduto

Poeta, cronista, jornalista e professor, com mestrado em literatura brasileira, Fabrício Carpinejar (junção dos sobrenomes da mãe, Carpi, e do pai, Nejar) coordena e dá aulas no curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), em São Leopoldo (RS). Também leciona no curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock, da mesma universidade. Ele ainda encontra tempo para apresentar dois programas em rádios gaúchas: um de entrevista com escritores e outro de dicas culturais.

Autor de treze livros, sendo oito de poesia, Carpinejar já recebeu vários prêmios: Cecília Meireles 2002, da União Brasileira de Escritores (UBE); Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; e Érico Veríssimo 2006, da Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre, são alguns deles.

Carpinejar fala da leitura em um tom poético e criativo e diz que a estante não tem portas justamente para que as pessoas possam pegar os livros sem cerimônia. Para ele, quando o livro for tão importante quanto um domingo, com certeza os níveis de leitura no Brasil serão muito mais elevados. Leia a entrevista deste talentoso autor e entre no clima do mundo da leitura.

Se você quer conhecer mais sobre este escritor acesse o site www.carpinejar.com.br ou o blog: http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br.

Jornal do Professor – Em sua opinião, qual é a importância da leitura na vida das pessoas?

Fabrício Carpinejar – A leitura não nos empresta somente palavras, nos empresta silêncio. Quem não lê dificilmente aprende a ficar quieto, aceitando a solidão como parte do pensamento. Ler é conversar consigo para melhor conversar com os outros. É organizar a experiência. Todo o turbilhão de fatos, lembranças, sequência de nossa vida pode ficar solto sem uma literatura que o organize. Não teríamos hierarquia, ordem, força nas idéias. Seria um caos sensitivo.

JP – A escola deve incentivar a leitura? De que maneira? Como os professores podem colaborar nesse sentido?

FC – Totalmente. A escola precisa entender que a criação e a leitura devem andar juntas. Não basta ler poesia, a criança depende de uma oportunidade para brincar com a poesia, escrever, entender como funciona, que ela não é à procura da beleza, é a procura da verdade. De uma verdade pessoal. Nada substitui a descoberta de um dom. Ler é um dom como o de escrever. Requer cuidado, afeto e disponibilidade para unir o que está sendo estudado com aquilo que está sendo vivido pelo estudante.

JP – Qual é o papel da família na formação dos leitores?

FC – A tarefa de casa não precisava existir na escola, é da família. O livro sempre foi um elo para entender meus pais. Deixavam cartas dentro das obras, trechos sublinhados. O livro é a toalha de mesa do café da manhã, do almoço e da janta. Objeto acessível, que não era endeusado. Muitas vezes, os pais criam bibliotecas para a criança pedir licença para mexer. Biblioteca tem que ter a naturalidade de nosso braço. É puxar de cima e amar. Assim como o hábito de contar histórias seduz a criança. É um teatro que ela dispõe por alguns minutos para ouvir a voz paterna e materna. Depois, eles vão procurar a voz dos pais nos livros e vão encontrar a sua. O livro fica em nossa vida quando emoldurado de encontros afetuosos. Todo jovem tem uma trilha sonora, eu tenho uma biblioteca para ouvir e guardar minhas mais fortes recordações. A escrita pode ser tão atraente quanto à música. Está esperando bons intérpretes.

JP – Você acha que é possível despertar o interesse pela leitura em pessoas mais velhas, tardiamente alfabetizadas, os chamados neoleitores? Que ações recomenda nesse sentido?

FC – Diante da solenidade da leitura, se a criança pede - infelizmente - licença para ler, o adulto tardiamente alfabetizado é obrigado a pedir desculpa. Ele lê com culpa, com medo de errar, de se envergonhar por não ter feito isso antes. O trabalho é retirar a carga de sacrifício e pesar, de vitimização. Cada um tem seu ritmo e sua mensagem. Indicaria o uso da vida cotidiana e o emprego da oralidade criativa e alegre para os neoleitores. Cantar, contar histórias, redigir cartas para família, preencher pedidos de emprego. Ler a vida para ler um livro, para ler depois o livro de sua vida. Outra coisa: somos analfabetos perante os nossos próprios sentimentos. Ninguém é culto o suficiente para lidar com o milagre vulnerável da pele. Diante da paixão, somos analfabetos e vamos soletrar o nome da amada. Diante da dor, somos analfabetos e vamos repetir as tristezas até acomodá-las. Ninguém nunca está atrasado para se revelar.

JP – O brasileiro ainda lê pouco. Para você, qual a razão disso? O que pode ser feito para melhorar a situação?

FC – Lê pouco porque não entende a leitura como uma escolha, mas como uma obrigação. E vamos adiar o que não escolhemos. Nesse processo de desvalia, o jornal é menosprezado. O jornal é sempre uma porta de entrada para o livro. No Rio Grande do Sul temos o exemplo de como o jornal é um hábito familiar. Ou seja: cuidar do cotidiano para depois navegar em direção às ilhas mais distantes. Eu acho importantíssimo não se descartar o jornal desse processo, como se fosse um objeto já anacrônico. Acho que o jornal tem um peso que é essa disposição de um tempo para ver o que está acontecendo no seu próprio mundo. É essa disponibilidade que tem de se criar. E a leitura produz um efeito de complicação, de hermetismo, ou seja, uma dificuldade, no caso da poesia. Parece que a gente tem de entender poesia. Não. A gente precisa aprender a lidar com a intuição. A gente precisa aceitar o erro, a falha, o tropeço, aceitar que a gente não vai entender praticamente tudo. A gente vai entender aos poucos, aos goles. É importante que a gente não tenha essa burocratização da leitura, ou seja, fazer com que a pessoa se sinta condenada a leitura. Eu acho que os dividendos e os ganhos a gente verá depois.

O livro tem de ser muito mais familiar do que a gente costuma ligar, manejar. Tem de ser algo mais acessível. A gente ainda trabalha o livro como estudo, não como prazer. Temos que estudar mais. Então ler mais é estudar mais, é se preparar mais.

O livro é justamente o contrário também. É como jogar futebol, vôlei. É de uma certa forma se descontrair mais, conversar mais, se alegrar mais. Eu não vejo um produto tão lúdico e tão aberto a essas referências referentes à imaginação. É óbvio que o livro é visto como trabalho. Eu acho que o livro é um jogo. A partir disso, um jogo de idéias, assim como os socráticos e os filósofos gregos se divertiam na argumentação, assim como os repentistas se divertem procurando o riso pelas palavras, assim como os trovadores do RS se divertem procurando a bravata, o chiste. É o modo como a gente lida ainda com a cultura. A gente lida como resíduo de um sistema de trabalho. Ela não está inserida ou enquadrada num contexto de contentamento e de final de semana. Quando o livro for tão importante quanto um domingo, com certeza os níveis de leitura no Brasil serão muito mais elevados.

JP – Algumas pessoas e municípios têm promovido ações visando estimular a leitura. Aqui em Brasília, por exemplo, foram criadas minibibliotecas nas paradas de ônibus. Qualquer pessoa pode pegar um livro para devolver outro dia, sem burocracia nenhuma. O que você acha desse tipo de ação? Traz contribuições?

FC – No Rio Grande do Sul a gente percebe que as experiências estão dando certo há décadas e décadas, que é a valorização do escritor. As escolas adotam escritores gaúchos, eles vão dar palestras, toda a cidade tem uma feira do livro. Há esse contato miúdo de conversa num trem, no ônibus, na rua, sem prefácio ou pós-fácio ou orelhas. Há uma identificação da leitura com o seu meio. Isso é feito de todo um trabalho de humanização do autor, que é um mediador carismático da sua obra. O livro é um cofre que às vezes nem o autor sabe o segredo para abrir. E isso é bonito, porque o livro não é um cofre e nem um altar. Eu acho que ele precisa ser uma estante virtual, no sentido do que ela passa para as pessoas. Uma estante não tem portas para que a gente possa arrancar mais facilmente o livro dali. A gente ainda trata a estante como se fosse um armário fechado.

Os índices de leitura do Rio Grande do Sul são os mais elevados do país. Eu acho que isso ocorre em função da leitura de jornal, dessa integração entre escola e autor, pela multiplicação de feiras do livro. Ou seja, há a necessidade de ter no calendário de qualquer cidade uma feira aberta ao público com descontos, promoções e conversas com escritores. Essa mobilização da cidadania é importantíssima porque a pessoa é que tem que escolher ler, porque se não for uma escolha não há reincidência. É uma necessidade espontânea. Não é fazer isso pelos outros, porque é importante para o trabalho, para família. A gente costuma delegar ao livro uma importância, para não assumir a nossa própria autoria.

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segunda-feira, 1 de março de 2010

Software Livre na Educação
Entrevista
Frederico Guimarães: computação e educação sempre estiveram ligados

Frederico Guimarães, coordenador do projeto Software Livre Educacional.

Autor:Arquivo pessoal

Coordenador do projeto Software Livre Educacional, que reúne profissionais da tecnologia e da educação para desenvolver e difundir ferramentas livres para a área, Frederico Guimarães é um defensor fervoroso pela liberdade no uso de softwares para a educação. Formado em biologia, ele está envolvido com o tema software livre há dez anos.

Atuou no projeto de formação de professores em tecnologia da informação, na rede municipal de educação de Belo Horizonte (MG) e hoje trabalha na manutenção da distribuição Libertas GNU/Linux, utilizada nessa mesma rede, em todas as escolas. Além disso, dedica-se à tradução de programas livres voltados para a educação e espera que essas tecnologias possam chegar o quanto antes em todas as escolas brasileiras.

Em entrevista ao Jornal do Professor, Guimarães avalia que o software livre seja uma ferramenta perfeita para ambientes educacionais. Além disso, destaca que a computação e educação sempre estiveram ligadas.

Jornal do Professor - Como o senhor se interessou pelo software livre na educação?

Frederico Guimarães - Eu uso computadores há muito tempo, desde meados da década de 80. Com o tempo, meu envolvimento com os computadores foi aumentando. Eu enxergava essa tecnologia como uma boa ferramenta educacional. Ao longo da minha história, computação e educação sempre tiveram uma associação muito forte. Quando conheci o software livre, em 1998, percebi que aquela era a tecnologia perfeita para ambientes educacionais, devido à sua flexibilidade e possibilidade de interferência no produto. Desde então, tenho me dedicado a entender cada vez mais como melhorar essa relação.

JP - Como essa tecnologia pode auxiliar professores na sala de aula?

FG - De várias formas. Você pode ser simplesmente um usuário do software livre e se beneficiar de sua estabilidade, segurança contra vírus e suporte distribuído por toda a rede. Se você quer se envolver um pouco mais, pode fazer alterações no software para que ele atenda a necessidades específicas ou traduzi-lo para seu idioma. Ou então pode usar o modelo em si como ferramenta educacional, trabalhando com os alunos alterações no código (para ensinar programação, por exemplo) ou a sua tradução (em um curso de idiomas, por exemplo). Também pode se beneficiar dos inúmeros programas livres desenvolvidos no ensino. Existem hoje programas para ensinar matemática, línguas, astronomia, língua portuguesa, entre outros.

JP - Há uma variedade de programas hoje para trabalhar com todas as disciplinas ou ainda é difícil encontrá-los?

FG - Existem softwares disponíveis para várias disciplinas. E eu não saberia citar todos os existentes, até mesmo pela própria natureza dinâmica do software livre. Mas determinadas áreas do conhecimento possuem uma variedade maior de aplicações. Por exemplo, encontram-se muito mais softwares para matemática do que para geografia. Mas nada impede que o uso do software seja extrapolado para outras áreas não previstas em seu foco original. Por exemplo: existe um jogo livre chamado FreeCiv que pode muito bem ser utilizado para trabalhar questões de história, mesmo não sendo ele, à princípio, criado para ser um "software educativo".

JP - Quais a dificuldades para se trabalhar com software livre na educação brasileira?

FG - Mais do que o software livre existe uma dificuldade em se trabalhar tecnologia, de uma forma geral, na nossa educação. Seja pela falta de recursos disponíveis ou pela falta de formação dos professores. Quando se insere o software livre no contexto, em particular o GNU/Linux, acrescenta-se uma nova variável que é um sistema operacional diferente do que as pessoas normalmente usam em casa. Não acredito que aprender a usar o GNU/Linux seja mais complicado do que aprender a usar qualquer outro sistema operacional. A dificuldade encontra-se em mudar a lógica de se trabalhar determinadas ferramentas.

JP - Como inserir essa tecnologia na vida dos professores e dos alunos?

FG – Através de várias iniciativas. A primeira delas é fazer todo um trabalho com os profissionais que lidarão com o software livre antes da sua implementação. Afinal, toda mudança é complicada, mas uma mudança na qual as pessoas envolvidas não têm clareza dos objetivos é ainda mais complicada. Esse trabalho de sensibilização pode ser feito através de reuniões ou de palestras. Outra iniciativa que pode ter um impacto positivo é disponibilizar alguma distribuição GNU/Linux que funcione diretamente em CDs ou DVDs. Isso ajuda as pessoas a se familiarizarem com o sistema sem a necessidade de o instalarem em suas máquinas. Também é importante um suporte de apoio aos usuários nas primeiras semanas de migração, para que eles não se sintam desamparados. É muito promissor, por exemplo, oferecer formações periódicas sobre o novo ambiente, que podem ocorrer tanto presencialmente quanto à distância, bem como disponibilizar um fórum permanente de discussões online. Por fim, é interessante apoiar encontros periódicos entre os usuários, tanto para discutir problemas quanto para apresentar o que eles têm realizado em seu trabalho cotidiano. Estimular a participação desses usuários em encontros de software livre também é muito bom.

JP - Qual a diferença do aprendizado de um aluno que faz uso dessas tecnologias para um que não faz?

FG - Essa é uma pergunta que daria um bom projeto de pesquisa. O que eu posso afirmar é que usando tecnologias livres o aluno pode "experimentar" mais o software e adequá-lo ao seu uso. Isso, por si, já é um aprendizado e tanto.

JP - Qual o futuro do uso do software livre na educação?

FG - Eu defendo que é única saída ética para o uso de computadores em escola. Isso porque o software proprietário lhe aprisiona a determinado produto que não pode ser manipulado, aperfeiçoado ou mesmo estudado internamente. É uma atitude absolutamente oposta ao que eu acredito que deva ocorrer em um ambiente educacional. Esse tipo de ambiente é o local da experimentação, da descoberta, da manipulação, da discussão. Isso não é possível com o software proprietário, uma vez que o único tipo de interação que ele permite é o seu uso. Uma educação que restrinja seus atores é uma educação pela metade. Tenho esperança em um futuro onde o software livre será padrão em ambientes educacionais. E seus usuários terão um grau de interação de modo que as escolas serão as grandes colaboradoras na criação e manutenção desses softwares.

JP - Como surgiu a comunidade Software Livre Educacional?

FG - A ideia de montar um grupo para discutir o uso educacional dos softwares livres surgiu em 2007, no Fórum Internacional do Software Livre (FISL). Chegamos a montar um grupo naquele ano, mas ele não foi para a frente. Novamente em 2008 lancei a ideia de montarmos um grupo, para os presentes na palestra que apresentei sobre softwares livres educacionais. Dessa vez a ideia vingou e avançamos um pouco mais nas discussões. Participamos com um estande no Latinoware em 2008 e no FISL em 2009. O Software Livre Educacional possui dois objetivos básicos: traduzir e documentar softwares livres utilizados na área educacional. Com isso, pretendemos fazer uma "ponte" entre o pessoal técnico e o pedagógico. Inclusive, a maioria dos participantes do projeto tem formação pedagógica ou de licenciatura.

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