As premiações literárias e as atividades em sala de aula
A agitação cultural promovida por um prêmio literário, como o Nobel, pode ser perfeitamente aproveitada por professores e alunos para a dinâmica do ensino em classe
Por Adriana Crespo
O anúncio do prêmio Nobel é o momento que a literatura tem garantido um considerável espaço na grande imprensa, todos os anos. Ao contrário dos “enigmáticos” prêmios destinados aos cientistas, os prêmios Nobel de Literatura e da Paz costumam ser compreensíveis e interessantes, mesmo ao grande público.
Os vencedores, especialmente quando já conhecidos, são comentados nos telejornais, os jornais de grande circulação falam sobre a vida e a obra do vencedor, sites e blogs debatem sobre a escolha, enquanto cada passo do vencedor é discutido nos grandes portais da internet.
Para o aluno de Literatura (ou de Língua Portuguesa nos últimos anos do ensino fundamental) a situação pode gerar dúvidas parecidas com as enfrentadas nas aulas de História: por que, nesse momento em que a Literatura torna-se importante a ponto de “estar na televisão”, continuamos estudando os mesmos autores de “milhões” de anos atrás? Qual a importância desse autor, por que ele recebeu tal honra (e tanto dinheiro!) e agora é uma sumidade? Se ele é tão importante, por que eu nunca ouvi falar dele nas aulas? E, o mais importante de tudo: “quem é esse cara”?
Ou, o que talvez seja mais comum, o aluno pode ficar tão distante ou indiferente ao assunto que não chega a perceber, não ouve falar, não fica sabendo sequer do Nobel, não sabe que isso existe. Talvez ele já tenha associado ou se conformado com a literatura como uma “coisa morta”, que pode ser interessante ou não, mas está inevitavelmente ligada ao passado e desconectada com o que acontece hoje, com o que acontece na vida dele.
LITERATURA É VIVA
Mesmo com a dificuldade do professor em ajustar o conteúdo necessário no decorrer de um ano letivo ao tempo disponível em sala de aula, vale a pena estudar a possibilidade de se usar o prêmio Nobel para discutir a literatura de hoje. É sempre importante frisar que a literatura é algo vivo, não apenas porque livros continuam sendo lançados e vendidos, como também porque, apesar de todas as dificuldades envolvendo mercado, a divulgação e o alcance, ela permanece sendo construída por autores de qualidade inegável. E é essencial que esses autores recebam reconhecimento, seja da crítica, seja do público, seja de premiações. Incentivo é fundamental, por mais amor que se tenha ao ofício.
ALGUMAS IDEIAS
Em um primeiro momento, basta um comentário do professor, como “vocês viram o noticiário ontem, o que foi falado sobre literatura?”, acompanhado de uma explicação (que pode ser mais ou menos aprofundada, de acordo com o tempo disponível) de o quê, afinal, é o prêmio Nobel, ou o prêmio Jabuti, ou a Academia Brasileira de Letras, ou o que quer que esteja sendo discutido pela mídia, na ocasião. Quanto mais imediato melhor, de preferência na mesma semana, enquanto o assunto está fresco na mente dos alunos que sabem do que o professor está falando.
O professor pode, então, tirar alguns minutos para ler sobre o autor vencedor e sua obra, mesmo que já os conheça. A chave é encontrar algo que possa relacionar com o que está sendo ensinado às suas turmas, como, por exemplo, a convergência do tema sertão nas obras de Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura de 2010, e Guimarães Rosa. É curioso que um autor estrangeiro tenha escrito sobre um assunto “tão nosso”, tão brasileiro que aos alunos mais urbanos soa até caricato. Se isso invalidaria a obra de Llosa e qual a importância de termos diferentes olhares sobre um mesmo momento histórico, inclusive olhares estrangeiros, são boas discussões para se trazer para a sala de aula.
Também é uma oportunidade para se explicar, mesmo que isso já tenha sido feito milhares de vezes, por que se estuda literatura desde os clássicos, ou ao menos por que isso é o normalmente exigido no currículo escolar. É um ponto que muito impacienta os jovens, para quem o mundo está acontecendo agora e é tudo interessante demais para se perder tempo com o passado. Mas, na literatura, não existe passado; as correntes vão e vêm, assim como os temas; um autor influencia o outro e compreender essa corrente é fundamental — ainda que não profundamente, ao menos compreender o processo universal que move a literatura.
Premiação em dinheiro
Além de uma medalha de ouro, os ganhadores do Nobel receberam este ano uma quantia equivalente a cerca de US$ 1,6 milhão, mais de dois milhões e meio de reais à data do prêmio.
Novamente, é um ensino semelhante com os das aulas de História, o que nos leva a segunda grande forma de se usar uma “premiação” em sala de aula. Caso passe a chance de usar o imediatismo de uma premiação em aula, se ganha em tempo de planejamento e em possibilidades multidisciplinares. Para alunos no final do ensino médio, que possivelmente logo enfrentarão um vestibular cheio de questões sobre atualidades, uma aula de literatura acompanhada pelo professor de Geografia pode ser muito esclarecedora. No caso do Nobel, a conotação política do prêmio é um ótimo gancho para se falar sobre atualidades; no caso específico de Vargas Llosa, sua relação com o Brasil vem desde A Guerra do Fim do Mundo, onde a Guerra dos Canudos é pungentemente narrada, até o novíssimo O Sonho do Celta. Ambos tratam de temas estudados nas aulas de História e usá-los, ainda que apenas como exemplo, mostra duas coisas importantes: a primeira, que a Literatura é uma disciplina viva, jamais condenada às estantes e somente a isso. A segunda é que o Brasil não é um país isolado ou fechado em uma redoma. Seu passado, sua história, seu modo de viver e mesmo sua situação política atual são considerados importantes e relevantes para escritores do resto do mundo, especialmente da América Latina.
FONTE:literatura.uol.com.br
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